Vai comprar o livro SAINDO DO ARMÁRIO? Onde gays encontram Jesus? Leia aqui.

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As aparências enganam. Tem um livro chamado SAINDO DO ARMÁRIO que, ao abrir, você encontra depoimentos de homossexuais que encontraram Jesus e deixaram sua homossexualidade. Não, não estou brincando. O autor usou um termo que remete a ideia de um gay se assumindo, “saindo do armário“, se aceitando, sendo realmente feliz, para, no conteúdo, colocar apenas depoimentos de gays que encontraram Jesus e abandonaram o “homossexualismo” (palavra em desuso!).

Não sei como isso soa para vocês. Mas, pra mim, isso é triste, deprimente e dai pra pior. A expressão saindo do armário é usada no mundo todo (lá fora “coming out“) apenas para dizer “Olha, saí do armário. Me aceitei como homossexual. Hoje sou feliz! Muito feliz! Sou Gay” e ponto.

Em nenhum lugar você encontra “Olha, saí do armário, encontrei Jesus e deixei de ser gay”. Isso definitivamente não existe. Mas, se o autor/pastor chamado Lúcio Barreto Junior escolheu isso, que assim seja. Vivemos em um mundo democrático e arte literária, é arte literária. Mas todos nós sabemos que as coisas não funcionam desta forma.

Quando eu escrevi meu quarto livro, o romance com temática gay chamado Theus: do fogo à busca de si mesmo (hoje considerado minha obra prima por vários dos meus leitores – quem tiver oportunidade, leia!), onde o protagonista Junior “se descobre gay” e é internado em uma fazenda religiosa que cura gays, muita gente achou isso absurdo. Nossa, esse tema? Ninguém hoje em dia faz isso! Com toda a paciência, eu sempre respondi. Não! Faz sim. Até pouco tempo atrás, por exemplo, a ONG MOSES (Movimento Pela Sexualidade Sadia), que durou 15 anos aqui no Brasil, convertia homossexuais em heterossexuais. O MOSES só foi dissolvido porque um de seus fundadores, o Sérgio Víula, vendo que a cura gay de fato não existia, foi parar na capa da Revista Época desmentindo tudo: dizendo o que ele sempre percebeu naqueles anos todos, que a cura, de fato, era uma farsa. Que os “convertidos” eram pessoas tristes, deprimidas e assim vai indo.

Na mesma época, o Êxodos, uma das maiores instituições religiosas do mundo, também com filiais por aqui, fechou várias de suas portas. Eles “curavam gays” mas, na mídia, era comum aparecerem alguns dos seus organizadores em orgias gays. No livro A História da Homossexualidade, do Colin Spencer, também tem vários relatos de instituições religiosas ao logo da história da humanidade que, em determinado momento, promoviam a cura gay e que, anos depois, tinham as verdades reveladas: muitos de seus organizadores apareciam em algum escândalo midiático, gay.

Então, para quem acha que estas coisas hoje em dia não existem, sim, existem! Na verdade existe uma guerra implícita de fundamentalistas religiosos para “curar homossexuais” acontecendo neste exato momento em que você lê este artigo. E nem precisamos ir tão longe. Lembra do caso da Isildinha e sua palestra “Como prevenir e reverter a homossexualidade” publicada aqui no meu blog e nos principais portais do país? Pois é, também tem o livro de outro pastor chamado “Homossexualidade Masculina” que, se você ler, trata apenas da “reversão da homossexualidade”. Mais um livro deprimente na minha visão de leitor e de alguém que estudou vários anos de psicologia e sexualidade onde, de fato, a cura não existe.

Por isso que eu luto, sempre que possível, para que meu livro O Armário chegue às pessoas que realmente precisam destas informações antes destas outras literaturas. Ano passado mesmo, saiu nota na Revista Exame (quase nenhum veículo LGBT noticiou) sobre o aniversário de 10 anos do meu livro que fala da homossexualidade e os processos psíquicos que envolvem a entrada e saída do armário. É um livro pró-LGBT. Embora eu não diga, em momento algum no livro, que o leitor deve se assumir. Eu falo que ele provavelmente terá uma vida muito mais saudável sendo ele mesmo (psicologicamente falando) do que ele se camuflar sendo quem ele não é. Para isso narro minha vida, cito sobre a história da homossexualidade desde o início dos tempos, dinâmica da família, machismo, homofobia internalizada e outros assuntos importantes que ajudem não só os homossexuais mas pais, professores e diversos profissionais a entenderem este universo.

Sem rodeios.

Se eu fosse falar em um livro coisas que não acredito, como por exemplo que basta alguém encontrar Jesus, Alá, Oxalá, Buda, Deus e afins que você deixará a homossexualidade, eu, com certeza, não usaria o título SAINDO DO ARMÁRIO.

Concordam?