Coluna destinada aos fãs e personalidades do mundo LGBT que tem o Queer As Folk como melhor seriado gay. Nas entrevistas sempre rolará perguntas onde o principal foco é o seriado, onde iremos abordar nossos entrevistados de que forma o QAF o ajudou a ter uma melhor vinvência homossexual.
Psicólogo, escritor, namorado, amante e safado
dessa forma podemos descrever um dos maiores ícones gay da cena brasileira,
estamos falando de Fabrício Viana que literalmente saiu do armário para fazer a
diferença e ajudar cada vez mais o publico LGBT de todo o Brasil. Tudo ocorreu
em meados de 2002 quando nosso Best Seller criou uma campanha digital
contra preconceito GLBT, daí em
diante não parou mais, veio livros, programas de televisão enfim literalmente
Fabrício Viana veio para fazer toda a diferença no cenário LGBT e agora você
fica com uma entrevista exclusiva que ele concedeu a nosso
site.
Quando foi literalmente que o Fabrício Viana saiu
do armário?
F.V – Quando criei um projeto chamado “Campanha
Digital contra o Preconceito GLBT” na Internet em 2002. Ele não teria nome de
ninguém, mas um dia antes, eu parei e pensei “Como um projeto entra no ar, com a
ajuda de várias empresas como o Mix Brasil, G Magazine, etc sem ter um nome
administrando?”. Foi ai que optei, em cima da hora, de colocar “Fabrício Viana”.
Até então ninguém me conhecia (detalhe: eu não era assumido) e o projeto se
tornou um sucesso. Foi levado inclusive pra Europa. Tivemos adesão de mais de 2
mil sites na época.
Como foi à reação da sua família
quando você contou que era homossexual?
F.V – Minha mãe ficou depressiva por
quase 06 meses. Chorava muito pelos cantos da casa. Não acreditava que o filho
que ela tinha, que até então era homem, não era mais “homem”. Falo muito isso no
meu livro “O Armário”. Justamente pras pessoas terem identificações, afinal,
minha história não é tão diferente da maioria. Entretanto, algumas situações e
conflitos podem ser amenizados caso você tenha algumas orientações (motivo
principal do livro). Hoje é tudo muito tranquilo. Não só com família mais com
qualquer rede social real que eu participo (vizinhos, pessoal do serviço,
etc).
Devido a diversas
situações e relatos de pessoas que sofreram preconceito de familiares e amigos
ao se assumir como foi a sua experiência. Você sofreu preconceito? Como
reagiu?
F.V – Não, nunca sofri preconceito.
Tive algumas brigas com familiares, muito depois de me assumir, mas foram brigas
onde a família pega coisas intimas para justamente ferir e machucar. Não conto
como preconceito. Hoje, depois de quase 15 anos que me assumi, tudo é muito
perfeito. Talvez também, por não morar com a família e não ter muita ligação com
ela. A prioridade na minha vida é, sem sombra de dúvidas, a minha vida. Passei a
me colocar com o centro das atenções. E isso é o que todos deveriam fazer, sejam
héteros, gays, bissexuais, etc.. A gente tem uma pré-disposição a viver sempre
em função dos outros. O que eles “vão pensar” pesa muito em nossa vida. Não
deveria.
Vimos que você já se dedicou a importantes projetos
para a comunidade GLBTS, como por exemplo, o Armário X e a Campanha Digital
contra o preconceito. Tem alguma coisa ainda do Fabrício Viana que ainda não
conhecemos?
F.V – Tem a TVTudo que ficou no ar por um certo
tempo (alguns vídeos estão no Youtube), tenho um livro de Yorkshire escrito e
que foi distribuído pela Internet (não leva o meu nome e sim o nome de um canil
que eu tinha – da mesma raça), tem um livro de frases e pensamentos (meu
primeiro livro escrito – não publicado), tem meus perfis em sites de caça e
pegação (como disponível.com e manhunt.net – também sou humano e faço sexo -
risos), enfim, tem algumas coisas na mente e que estão prontas para sair. Mas,
embora eu tenha muita exposição na Internet, tem muita coisa que muitos
realmente não sabem e nem irão saber. Só se me conhecerem pessoalmente. Ou nem
pessoalmente.
Por que o subtítulo “POETICAMENTE
SAFADEZA”, você não acha que há um pouco de promiscuidade nessa
frase?
F.V – De um tempo pra cá venho
estudando a sexualidade profundamente. E os relacionamentos humanos também. Eu
sempre fui safado, mas nunca coloquei isso em ênfase. O que acho um erro. Alguns
me criticam, dizem que, por eu ser gay, eu deveria me conter e não passar a
ideia de promíscuo. São pessoas que, embora acreditem ter uma sexualidade
saudável, ainda tem resíduos condenáveis de si no outro. Afinal, qual o problema
de você ter um relacionamento a dois sem ter exclusividade sexual (que, por
exemplo, é algo que a Regina Navarro, heterossexual, sempre enfatiza nos seus
livros e twitters?). Não é porque sou gay que não posso evoluir. Se meu foco é
este, pronto. Respeitem. Se não gostam, apareçam na mídia como santinhos e
mostrem a cara (coisa que nem isso sabe fazer). O problema, então, não esta em
ser gay, em ser promiscuo, em ser isso ou aquilo, e sim em desenvolver e se
livrar de vários conceitos negativos que são introjetados em nosso inconsciente
desde pequeno (que sexo é sujo, que sexo é uma perversão, que transar sem amor
não é legal, que alguém que faz muito sexo com parceiros diferentes é
podre/doente – para isso temos a camisinha! - e por ai vai
indo).
Nos dias atuais estamos tendo noticias na TV e
internet, que a homofobia está cada vez mais em evidência em nosso país. De que
forma você analisa essas situações? Qual a possível solução para as mesmas e se
há soluções?
F.V – Leis. Quando criaram a lei que torna crime o
racismo, as pessoas não deixaram de ser racistas, mas pararam de explicitar seu
racismo por medo de serem presas e condenadas. No caso da homofobia é a mesma
coisa. Precisamos de leis que criminalizam, a partir do momento que ela for
considerada crime, poucos a explicitarão.
Outro tema que temos bastante atual no mundo todo é
sobre casamento homossexual, você é a favor dessa
legalidade?
F.V – Não sou a favor do casamento (e, em 2011 com
o lançamento do meu livro sobre dinâmicas psíquicas dos relacionamentos humanos)
nem mesmo a favor do namoro, do jeito que é feito por todos, mas se as pessoas
querem casar, porque não? Se um hetero tem o direito legal, o gay também tem que
ter obrigatoriamente o mesmo direito. E nem estamos falando do casamento
religioso, é o casamento civil mesmo.
Falando em casamentos, de que forma você encara
algumas forma de relacionamento como, por exemplo, o relacionamento aberto. Você
viveria uma relação desta? Se sim ou não por quê?
F.V – Já vivi e, atualmente não. Flavio Gikovate,
um dos teóricos que estudo (além da Regina Navarro citada acima), escreveu uma
matéria na Veja onde o título era algo do tipo “Entre ficar solteiro, namorar e
casar, escolha sempre à primeira opção”. Na época, mesmo eu tendo um casamento a
três (sim, eu e mais dois caras moramos por quase 01 ano juntos, sob o mesmo
teto), não conseguia entender o que era optar por ficar solteiro. Hoje eu
entendo e acho mesmo que é a melhor opção. Mas, para entender, precisa explicar
todas as outras formas de relacionamento. E as dinâmicas causadas por nossas
opções. Vocês sabiam, por exemplo, que o lugar em que menos se faz sexo é dentro
de um casamento? E isso é estatística! E se isso acontece, porque persistir no
erro: separar, casar, separar, casar de novo, etc? Da pra fazer diferente? Dá!
Como? Vou explicar no meu próximo livro! E ele vai ajudar muita gente. Tanto
casais de namorados, casados e solteiros. O problema não esta na relação
(aberta, fechada, meio-a-meio, etc) e sim no individual de cada um: o que você
faz quando bate o vazio no estômago, o sentimento de desamparo, abandono, etc. E
isso também irá explicar.
Podemos notar que muitas pessoas como pais, gays e
a mídia entraram em contato com você depois do sucesso de seu blog e livros. A
pergunta é pais entraram em contato com você para procurar entender mais sobre a
homossexualidade de seus filhos, ou para criticar todos seus
argumentos?
F.V – Não, geralmente as mensagens são em forma de
desabafo ou desespero. São emails enormes, muitos não consigo ler, mas noto que
mudam os personagens e o cenário, mas o drama é o mesmo. É tudo muito igual. Por
isso que eu escrevi O Armário. Na época eu queria indiciar para estas pessoas um
livro fácil para que elas pudessem ser ajudadas e orientadas de alguma. Não
existia um livro didático. Existiam e existem livros maravilhosos, mas não de
fácil leitura. Foi ai que decidi escrever um. E consegui. Até hoje foram mais de
1200 exemplares vendidos. Um grande sucesso. E muita gente que lê, gosta. Pais,
filhos, educadores, religiosos, etc. Quando recebo crítica, geralmente são de
religiosos fanáticos dizendo que vou pro inferno ou algum outro lugar parecido.
Não ligo. Sou ateu.
Fica clara para as pessoas a mensagem que você
deseja passar quando você participa de programas ou debates na TV ou em
instituições publicas como é a participação dos ouvintes?
F.V – Acredito que sim. Na verdade cada programa de
TV ou rádio tem um tempo curto para você falar algo. Antes de entrar no estúdio
eu sempre pergunto “qual o tempo efetivo que eu vou ter para falar?” Geralmente
respondem 5 minutos. Então eu tento, dentro daquele tempo, falar coisas
pertinentes sem me estender. Geralmente consigo. Mas, de fato, nada, nem meu
livro, nem um bate-papo ou palestra vai conseguir sanar todas as dúvidas. Apenas
dar um caminho. Apenas mostrar que tem alguém – modestamente – inteligente e
centrado dizendo algo pertinente sobre aquilo que se propõe.
Vamos agora falar um pouquinho do
seriado.
Quando, como e aonde você ouviu falar do seriado
QAF pela 1ª vez?
F.V – Faz muito tempo. Na época um amigo tinha
alguns episódios em VHS. Acho que não existia DVD. Não me recordo. Só sei que
copiei e assisti várias vezes. Depois de um tempo veio às temporadas e até hoje
eu não consegui assistir tudo. Falta de tempo e também excesso de novas séries
(Glee é a sensação, só assisti a primeira temporada e se não me programar, vou
me perder de novo). Mas, pelo que me lembro, eu me apaixonei. Tanto pela
história como pelos personagens. Alias, não tem como não se
apaixonar.
O seriado muita das vezes retrata
aquilo que o homossexual vive diariamente você acha que dessa forma estamos
sendo ajudados ou prejudicados por essas exibições?
F.V – Já tinha escutado coisas assim.
Mas temos que entender que tudo tem seu lado bom e ruim. Não adianta só mostrar
o lado bom das coisas. A gente se identifica, também, com as coisas não tão
boas. E quanto mais o seriado mostra tudo, mais ele se torna realístico e mais
as pessoas se identificam. Se ele não vai ajudar na formação social, se ele não
é “educativo”, dane-se. Ele é um seriado. Ele é entretenimento. E se ele mostra
a realidade, ótimo. Se a realidade não é boa, não é problema do seriado. É a
mesma coisa que aconteceu com Cidade de Deus, se a realidade era aquela, dá pra
fazer algo diferente? Se alguém esta incomodado, faça sites educativos, projetos
de apoio, coisas do “bem” pra sociedade perceber e incluir melhor o homossexual.
Criticar e não fazer nada sempre foi muito fácil.
O seriado te ajudou de alguma forma a
entender ou até mesmo exemplificar em seus debates algo relacionado à
homossexualidade? Tipo você já indicou o seriado para o entendimento de
alguém.
F.V – No meu caso não. Gosto de
meter, literalmente, a cabeça em tudo. Sobre indicar, sempre que possível.
Inclusive, enquanto respondo este questionário, comentei com um amigo que esta
aqui em casa e ele se interessou por assistir. Viu? O negócio funciona.
Conta para agente, qual dos
protagonistas mais te chama atenção? E por quê?
F.V – A maioria. Não tem um
especifico. Eu sempre me apaixonei por filmes e seriados justamente pela
construção dos personagens. Mas eu gosto do jogo psicológico envolvendo o amor
entre o Michel e o Brian. Brian controla o Michel não dando a ele o que ele mais
gostaria de ter inconscientemente (o próprio Brian). Enfim, daí pra frente eu
viajo. Gosto também do Justin, acho ele bem jovem, libertino e “puta”. Conheço
muita gente assim. Geralmente me apaixono. Deve ser
identificação.
Tem algum episódio do seriado te
marcou, ou seja, que você vivenciou?
F.V – Uma cena. O Justin vai ao
banheiro e acaba se atracando com um garoto no reservado. Já fiz isso. Adoro
aquela cena. Tem também a outra em que o Brian vai comprar um carro, o cara tira
sarro de “viado” e ele mete o carro na porta da loja com agressividade, em forma
de protesto velado. Eu também já fiz isso. Alias, faço.
Deixe uma mensagem para todos nossos
seguidores do TT e do blog
F.V – Obrigado pela lembrança. Às
vezes fico pensando. Eu dou a cara a tapa, vou em programas de TV, escrevo
livro, faço isso e aquilo. Mas tem tantas outras pessoas que também ajudam de
outras formas e maneiras os outros a se “assumirem” e a “saírem do armário”.
Isso me deixa muito feliz. Me da sensação de não estar sozinho. Me da sensação
de uma ajuda mútua/coletiva. Como se todos estivéssemos dentro de um mesmo barco
e com os mesmos objetivos. Esse blog, o próprio seriado, são também forças de
trabalho para “ajudar pessoas”. Continuem assim.
Fabrício queremos lhe agradecer pela
entrevista e lhe desejar muito sucesso.
F.V – Eu, novamente, é quem agradeço.
Tenho muita coisa bacana pra falar e, infelizmente, não dá em uma entrevista.
Convido a todos a conhecerem meu livro www.oarmario.com e aguardar o lançamento de novos
títulos. Quem quiser me acompanhar pelo Twitter, o link é www.twitter.com/fabricioviana. Meu site pessoal www.fabricioviana.com. Também estou no Facebook e em
algumas outras redes sociais. Um grande abraço para todos. E se rolar de
assistir o seriado na casa de alguém, tipo evento entre amigos, me chamem. Como
eu disse, me perdi nas temporadas e preciso rever. Com boas companhias, melhor
ainda.
Conheça um pouco mais de Fabrício Viana
Conheça um pouco mais de Fabrício Viana




