#ARTIGO: Uma criança pode ver dois homens se beijando?

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O primeiro evento gay realizado em um parque temático em São Paulo anos atrás foi um sucesso absoluto, principalmente na aceitação de funcionários e do público do parque que acabou levando a família sem saber que o dia seria “gay”.

Claro que o evento não agradou a todos e pouquíssimas famílias reclamaram. Uma das indignações que acabei escutando foi “Meu filho é uma criança, não pode ver dois homens se beijando!”

Não sei como é isso aos olhos dos outros, mas como também sou bacharel em psicologia e conheço todo o processo psíquico da formação da personalidade do ser humano, especialmente de uma criança, achei que varias coisas deveriam ser esclarecidas. E porque não na forma de um artigo? Onde poderia ser lido e recomendado para muitas outras pessoas?

Voltando para a indignação do pai acima, eu pergunto, será que é tão terrível para uma criança ver dois homens se beijando? Será que ela realmente não entenderia?

Antes de responder, vamos a dois casos:

O primeiro deles é sobre uma amiga minha e do meu namorado, heterossexual simpatizante e que freqüenta balada GLS/LGBT sempre que pode com a gente e com um de seus familiares que também é homossexual. Ela tem uma filha de 7 anos e sempre quando vem em casa insiste em dizer a sua filha que nós dois somos primos e nunca namorados. Até ai, ela é a mãe e acredita estar educando corretamente sua filha.

O segundo exemplo é de outro amigo, estudante de direito que pretende trabalhar com homossexuais quando se formar. Certa vez me contou que seu filho de 5 anos ao ver ele conversando com um casal gay sobre união civil chegou em casa e perguntou se os dois eram namorados. O pai respondeu que sim. O filho perguntou se isso poderia. Ele então disse que sim, homem com homem e mulher com mulher também namoravam e viviam juntos, mas que a sociedade não falava muito sobre isso. Seu filho entendeu este simples, sincero e verdadeiro esclarecimento e encerrou o assunto. Talvez o tenha futuramente de forma mais complexa, mas sua curiosidade foi sanada naquele momento de forma correta.

Bem, entre um exemplo e outro podemos observar que a diferença entre as duas atitudes é que no primeiro caso a mãe, por mais “simpatizante” que seja e desencanada com a homossexualidade, tem amigos e vai em baladas com gays, tem medo de contar a verdade a sua filha. Talvez porque no fundo acredite (sem ter total consciência disso) que a homossexualidade ainda é algo ruim e inaceitável. Ao ponto de esconder de sua filha e transferir seu medo sobre ela. Afinal, “nós somos primos e nunca namorados”.

Esse medo também remete a outro. Se homossexualidade não é apenas uma vertente saudável da sexualidade humana, é algo negativo e ruim em seu inconsciente, ela tem medo e acredita que se contar a verdade sua filha se torne homossexual quando crescer, especialmente se ver dois homens se beijando. Ou duas mulheres.

Esse é o medo de muitos pais. Uma criança que ver duas pessoas do mesmo sexo se beijando irá torná-la também homossexual. Pois bem, eu nasci e cresci vendo casais heterossexuais se beijando na rua, na televisão, em parques e em vários lugares, no dia e na noite, muitas vezes por dia durante mais de 20 anos e nem por isso tive desejos ou vontades “heterossexuais”.

Esse meu exemplo é suficiente para dizer que uma criança será homossexual ou não independente de qualquer outra coisa. O que vai diferenciar é que ela sofrerá mais ou sofrerá menos de acordo com a aceitação dos pais sobre os desejos que sente por pessoas do mesmo sexo. Dependendo do caso, nem precisará sofrer.

Um fato é certo. Devemos sempre ser sinceros com as crianças em suas perguntas. Principalmente sobre a sexualidade humana. Neste momento lembro de um um caso apresentado no livro “O desenvolvimento da Personalidade” de Carl Gustav Jung, discípulo direto de Freud (o pai da psicanálise) onde ele descreve todo o processo psíquico de uma menina de 3 anos quando sua avó lhe explica que todo bebê é trazido por uma cegonha. Fábula popular contada por milhares de pais “mentirosos” por todo o mundo. Nas primeiras páginas do livro Jung descreve como a menina descobriu a verdade (por associações próprias!) durante os dois anos e no final, quando imagina corretamente como são criados diz a sua mãe “Os bebês são trazidos pela cegonha!”. Ela já sabe a verdade mas pensa, porque irei falar a verdade aos adultos se eles mentiram pra mim o tempo todo? Quem puder, leia.

Concluindo, o medo dos pais sobre uma criança ver ou saber sobre homossexuais ou casais homossexuais é apenas uma transferência deste medo sobre elas. Caso a criança seja educada corretamente e com informações sempre verdadeiras, ela terá uma maior consciência do mundo em que vive, não terá seus pais como mentirosos (mais cedo ou mais tarde ela acabará descobrindo a verdade) e poderá se desenvolver da melhor forma possível.

Caso tenha alguma dúvida sobre como educar seus filhos corretamente, principalmente quando o assunto for sexualidade humana, consulte um profissional especializado (psicólogo, psiquiatra, educadores, etc) que entendam profundamente deste assunto. A regra básica é “fale sempre a verdade” juntamente com “Nunca minta ou omita qualquer informação”.

Não precisa contar detalhes minuciosos da relação. Mas o básico. O que acontece. O que existe. Afinal, uma criança educada corretamente se tornará um adulto saudável e pronto para a vida com todos os momentos bons e ruins que ela venha a oferecer.

Pense nisso. E se precisar de mais informações, leia meu livro O Armário, sobre a homossexualidade e os processos psíquicos que envolvem a entrada e a saída do armário.